Uma nova opção entrou no cenário do TDAH nos Estados Unidos: a centanafadina, aprovada pela FDA para adultos e para crianças a partir de 6 anos que pesem pelo menos 20 kg. A novidade chama atenção porque atua sobre três sistemas de neurotransmissores — noradrenalina, dopamina e serotonina —, algo diferente das opções mais usadas hoje.
Mas uma aprovação regulatória não responde automaticamente à pergunta que mais interessa na prática: ela é melhor do que os tratamentos que já temos? Por enquanto, a resposta é: não sabemos.
O que os estudos mostram
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu cinco ensaios clínicos randomizados, com 1.968 participantes. Em comparação com placebo, a centanafadina reduziu sintomas de TDAH com tamanho de efeito global pequeno a moderado, em torno de g = −0,37.
Ensaios em crianças e adolescentes também mostraram melhora em funções executivas e problemas de aprendizagem ao longo de seis semanas. Esses resultados sustentam eficácia contra placebo, mas o ponto crítico é outro: não houve comparação direta robusta com metilfenidato, lisdexanfetamina ou atomoxetina.
Por que a serotonina chama atenção?
Os tratamentos clássicos para TDAH atuam principalmente sobre dopamina e noradrenalina. A centanafadina também interfere na recaptação de serotonina. Isso pode abrir possibilidades, mas acrescenta perguntas: quais pacientes se beneficiam mais? Há diferenças relevantes de tolerabilidade? Como ficam as interações com antidepressivos serotoninérgicos?
Essas respostas dependem de experiência de mundo real e estudos comparativos mais longos.
É estimulante ou não?
A centanafadina tem um mecanismo farmacológico diferente dos estimulantes tradicionais, mas a documentação regulatória norte-americana prevê enquadramento como substância controlada e estimulante do sistema nervoso central. O processo de agendamento pela DEA ainda é parte da história regulatória nos Estados Unidos.
O que ainda não sabemos
- eficácia comparativa direta contra os tratamentos de primeira linha;
- segurança e manutenção do benefício por anos, não apenas semanas;
- quais perfis clínicos teriam maior vantagem;
- como o medicamento se comporta em combinações comuns na prática psiquiátrica.
Então a notícia é relevante, mas a leitura precisa ser sóbria: ganhamos uma nova opção; não ganhamos ainda um novo campeão do tratamento do TDAH.
Referências principais
- FDA. Novel Drug Approvals for 2026; Simtiryo (centanafadine).
- Muneer MA, et al. Efficacy and Safety of Centanafadine in ADHD: systematic review and meta-analysis. Psychopharmacology Bulletin. 2026;56(3):47-65.
- Wilens TE, et al. Efficacy of Centanafadine for Executive Functioning and Learning Problems in Children and Adolescents with ADHD. 2026.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individual. Novos medicamentos devem ser interpretados no contexto de indicação, disponibilidade regulatória, riscos e alternativas terapêuticas.
Gotas de Saúde Mental
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