Uma dieta criada há mais de um século para tratar epilepsia está entrando em uma das discussões mais interessantes — e também mais fáceis de exagerar — da psiquiatria atual: será que a cetose nutricional pode ajudar pessoas com transtornos mentais graves?

A resposta curta é: talvez em alguns contextos, como complemento. A resposta cientificamente responsável é mais importante: os primeiros resultados são promissores, mas ainda não justificam abandonar medicamentos, psicoterapia ou outros tratamentos eficazes em favor de uma dieta.

Por que a psiquiatria está olhando para o metabolismo?

Esquizofrenia e transtorno bipolar não são simplesmente “doenças metabólicas”. Mas pessoas com esses diagnósticos apresentam alta frequência de obesidade, resistência à insulina, diabetes e síndrome metabólica. Parte disso se relaciona ao estilo de vida e à própria doença; parte pode ser agravada por alguns medicamentos psiquiátricos.

Ao mesmo tempo, pesquisadores vêm estudando alterações em produção e uso de energia pelas células, função mitocondrial, estresse oxidativo e sinalização cerebral. Isso abriu espaço para uma pergunta legítima: intervenções metabólicas poderiam influenciar também sintomas psiquiátricos?

O que é, de fato, uma dieta cetogênica?

Não é simplesmente “parar de comer pão”. A dieta cetogênica reduz bastante a ingestão de carboidratos, mantém proteína em quantidade adequada e aumenta a participação de gorduras. O objetivo é produzir cetose nutricional: o organismo passa a gerar corpos cetônicos, como o beta-hidroxibutirato, que podem ser utilizados como fonte de energia.

Na epilepsia, essa estratégia tem uso clínico consolidado em situações específicas. Em psiquiatria, porém, estamos em outra etapa da evidência.

O estudo de 2026 que mudou o nível da conversa

Em julho de 2026, o Schizophrenia Bulletin publicou o primeiro ensaio randomizado a avaliar uma intervenção cetogênica em pessoas com transtornos do espectro da esquizofrenia e transtorno bipolar tipo I.

Foram randomizados 58 participantes: 28 para dieta cetogênica e 30 para manter a alimentação habitual durante um mês. Nessa comparação randomizada, a dieta cetogênica produziu melhora de marcadores metabólicos, incluindo peso, hemoglobina glicada e resistência à insulina.

Depois, parte dos participantes entrou em uma extensão, e 25 pessoas completaram quatro meses de dieta cetogênica. Nesse grupo, os pesquisadores observaram melhora de sintomas positivos, negativos e depressivos, além de desempenho cognitivo.

A nuance que a manchete pode apagar: a melhora psiquiátrica mais marcante foi observada na fase mais longa, comparada ao próprio estado inicial dos participantes. Ela não tem a mesma força causal da comparação randomizada de um mês.

Esse detalhe importa. Um estudo pode ser chamado de randomizado e, ainda assim, algumas de suas análises posteriores terem menor proteção contra vieses. A melhora após quatro meses pode ser real, mas ainda precisamos de ensaios maiores, mais longos e com grupos-controle mantidos durante todo o período.

“Foi a perda de peso que melhorou a cabeça?”

Os autores encontraram uma associação interessante: níveis maiores de cetonas no sangue se correlacionaram com melhora de alguns marcadores metabólicos e de sintomas depressivos. A perda de peso, por sua vez, não explicou essas melhoras.

Isso fortalece a hipótese de que a cetose possa ter efeitos próprios. Mas correlação dentro de um estudo pequeno ainda não prova mecanismo. É um sinal para investigar, não um veredito.

E o estudo piloto de Stanford?

Antes desse ensaio randomizado, um estudo piloto publicado em 2024 acompanhou 23 pessoas com esquizofrenia ou transtorno bipolar e alterações metabólicas durante quatro meses de dieta cetogênica. Houve melhora metabólica e sinais favoráveis em sintomas psiquiátricos.

O problema é que esse estudo tinha apenas um grupo, sem comparação randomizada. Quando alguém recebe acompanhamento intensivo, muda a alimentação, perde peso, melhora o sono e passa a monitorar a saúde, muitas coisas acontecem ao mesmo tempo. Por isso, estudos abertos são importantes para gerar hipóteses, mas não bastam para estabelecer eficácia.

Já existe consenso para usar?

Em 2026, um painel internacional de profissionais com experiência em terapia metabólica cetogênica publicou recomendações práticas para seu uso em transtornos mentais graves. O próprio trabalho reconhece o ponto central: a evidência ainda está amadurecendo.

Há ensaios maiores em andamento. Um estudo randomizado em primeiro episódio de transtorno bipolar e transtorno esquizoafetivo prevê conclusão em 2027; outro, envolvendo esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão maior, está planejado para acompanhar cerca de 120 participantes.

Por que não é uma dieta para começar sozinho?

Uma intervenção cetogênica terapêutica é diferente de seguir dicas de internet. Ela pode modificar peso, glicemia, pressão arterial, hidratação, eletrólitos e lipídios, além de interagir com condições clínicas e exigir ajustes em medicamentos não psiquiátricos.

Em pacientes com transtorno bipolar ou psicose, existe ainda uma questão adicional: mudanças bruscas de sono, rotina, ingestão calórica e adesão medicamentosa podem desestabilizar um quadro que estava controlado. Por isso, qualquer experiência clínica deve ser planejada e monitorada.

Também precisamos evitar um erro comum: transformar uma intervenção complementar em uma narrativa de “medicina natural versus remédio”. Os estudos atuais avaliaram dieta em pessoas que continuavam recebendo cuidado psiquiátrico. Eles não demonstraram que suspender estabilizadores do humor ou antipsicóticos seja seguro.

O que eu diria hoje a um paciente?

Se uma pessoa com esquizofrenia ou transtorno bipolar tem também obesidade, resistência à insulina ou síndrome metabólica e se interessa por uma estratégia cetogênica, existe hoje uma base científica suficiente para discutir o tema seriamente com psiquiatra, médico clínico e nutricionista.

Mas eu apresentaria a intervenção como experimental e complementar, com objetivos definidos, monitoramento metabólico e psiquiátrico e sem mudanças abruptas na medicação.

A conclusão sem torcida

A psiquiatria metabólica é uma área fascinante porque faz perguntas novas sobre cérebro e corpo. O risco começa quando “promissor” vira “comprovado” antes da hora.

Hoje, a formulação mais justa é esta:

A dieta cetogênica mostrou benefícios metabólicos em uma comparação randomizada curta e sinais de melhora psiquiátrica em seguimentos mais longos. É uma linha de pesquisa séria, mas ainda não é tratamento de primeira linha nem substituto estabelecido para medicamentos e psicoterapia.

Se os ensaios maiores confirmarem esses resultados, poderemos ganhar mais uma ferramenta — especialmente para pacientes em que saúde mental e saúde metabólica estão profundamente entrelaçadas. Até lá, curiosidade científica e prudência clínica precisam caminhar juntas.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individual. Dietas terapêuticas restritivas e alterações de medicamentos devem ser realizadas com acompanhamento profissional.

Referências principais

  • Abram SV, et al. Metabolic Improvements with a Ketogenic Diet Correlate with Symptom Improvement in Psychosis: A Randomized Controlled Trial. Schizophrenia Bulletin. 2026. DOI: 10.1093/schbul/sbag082.
  • Sethi S, et al. Ketogenic Diet Intervention on Metabolic and Psychiatric Health in Bipolar and Schizophrenia: A Pilot Trial. Psychiatry Research. 2024;335:115866. DOI: 10.1016/j.psychres.2024.115866.
  • ClinicalTrials.gov NCT06221852. Ketogenic and Nutritional Interventions for First Episode Bipolar Disorder.
  • ClinicalTrials.gov NCT06748950. Ketogenic Metabolic Therapy in Schizophrenia, Bipolar Disorder, Major Depressive Disorder.

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